Portugal de longe

A meio da tarde interrompi o trabalho para falar um pouco com patrícia acabada de chegar de Portugal. Ao "então como está aquilo?" segue-se uma escatologia que apenas não é uma saraivada de palavrões porque estou defronte a uma senhora. E como a conheço, nada dos coitadismos tão habituais, fico impressionado.

Grosso modo é o que me dizem nos últimos tempos todos os nossos compatriotas que aí vão - e acho que o vou transparecendo neste blog. E também a minha impressão quando aí passo, ainda que a correr.

Não é nada de "estrangeirado", a olhar de cima como se de paróquia aí se tratasse e nós cosmopolitas (em Maputo?). É mesmo estranheza. Estranheza sentida por pessoas diferentes, esquerda ou direita, norte ou sul, profissões diferentes. Mas não é estranheza com a política e o "sistema" (está na moda, o meu presidente recuperou o termo). É mesmo com os nossos patrícios - hoje o termo usado foi "alienados", noutras conversas chamam-se-lhe outras coisas (ainda há quem tenha passado pelo Marx, mas nem todos). Alienação produzido por alguém, auto-alienação, vejam como quiserem. Mas que estranha gente a nossa. Ou somos nós, "emigras" que não (os) percebemos...?

Pobres não, que já nem se lembram de como era há 15 ou 20 anos. Mas então o quê? E a todos nós nos aterroriza o horizonte de regresso. Por causa da companhia que teremos, não por mais nada.

Mas ainda há gente. Volta e meia volto ao tipo do Substrato, talentoso bloguista e implacável observador. E que hoje chama o Arquitecto (o único arquitecto que os malditos maçónicos deviam respeitar).

E ao ler este artigo só me ocorre perguntar: está tudo louco por aí? Como é que é possível chegar-se a este ponto?

[como o Público cessa as ligações após algum tempo, aqui fica o artigo para alguém que chegue atrasado. E isto porque Lisboa é minha.]

O Monte Santo
Por GONÇALO RIBEIRO TELLES
Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2004

O Parque Florestal de Monsanto é uma das áreas naturais em que, a nível regional, se apoia a Área Metropolitana de Lisboa. Fazem também parte dessa macro-estrutura ecológica as serras de Sintra, da Arrábida, a Tapada de Mafra, o litoral atlântico e os sapais estuarinos. Infelizmente, a serra da Carregueira, em vias de total ocupação urbana, não poderá, no futuro, figurar em tal estrutura regional.

A serra de Monsanto foi desde o domínio romano ocupada por searas de trigo com a excepção de algumas quintas, situadas no sopé da serra, cuja presença se justifica pela maior abundância de água no lugar.

Quando, em 1938, se iniciaram as plantações no Parque de Monsanto, há mais de 50 anos, o solo da serra encontrava-se desprovido dos horizontes superiores e, por tal motivo, só era possível o desenvolvimento, em tempo útil, da vegetação passando pelas sucessivas ocorrências que a evolução ecológica vai criando ao longo do seu percurso até ao equilíbrio final com o meio. Era, portanto, necessário acelerar o processo natural com a plantação de espécies pioneiras, mesmo que estranhas à região, mas mais adaptáveis às circunstâncias de então.

O crescimento dessas espécies protegeu o aparecimento da formação climax porque foi fornecendo a matéria orgânica necessária à constituição de um solo vivo e possibilitou a protecção à radiação solar, indispensável ao aparecimento das formações vegetais próprias dos diferentes lugares da serra. Simultaneamente foram surgindo as espécies animais, da vida silvestre, primeiro as aves e as espécies inferiores e, mais tarde, as de maior dependência dos biótopos que enriquecem, gradualmente, a vida silvestre do Parque.

Passou mais de meio século e a vida silvestre surge exuberante na serra de Monsanto, o que permite a concretização de um velho sonho: a presença de um extenso bosque natural de significativa riqueza botânica e faunística, à disposição dos habitantes de Lisboa, numa grande extensão verde na periferia da cidade, que é hoje também um lugar central, indispensável à estruturação ecológica da Área Metropolitana de Lisboa, e de enriquecimento cultural, contacto e contemplação da natureza e paisagem, exercício físico e lazer de toda a sua população.

O Parque Florestal de Monsanto, sujeito ao regime florestal, constitui uma unidade ecológica e paisagística que não deve ser loteada porque, em o sendo, perde a sua razão de ser e a essência natural que levou meio século a concretizar-se através de uma inteligente acção humana que tem compreendido a dinâmica da natureza.

O espírito do Parque é o mesmo das históricas Tapadas e Matas que ainda, felizmente, subsistem no nosso país. A íntima relação com a natureza e o recreio contemplativo que proporcionam não permite, sem a sua destruição, transformá-las num mosaico de parques urbanos, feiras populares, recintos desportivos com todas as infra-estruturas necessárias para o respectivo funcionamento e a carga de ruído, artificialismo e concentração de gentes que acarretam.

Deixem Monsanto ser o monte santo de Lisboa e, como tal, um bem sagrado dos seus habitantes, actuais e vindouros. Não destruam em meia dúzia de anos um trabalho de meio século.

posto por ele em 23 de fevereiro 2004 | na rubrica Atlântico | comente

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