Acontecimentos de Nampula

Pelo mundo ecoa o sangue de Nampula. As primeiras denúncias de raptos e de cadáveres desorganizados foram por cá menosprezadas como alarmistas. Não só pelas autoridades mas também pela comunicação social, e nestas incluindo alguns teclados usualmente atentos e críticos.

Não me arrogo de clarividente. Também achei tudo meros exageros, habituados que estamos a boatos espantosos provenientes dos distritos. Quando os rumores recaíram sobre um casal de brancos (zimbabweno e escandinava, julgo) recém-chegados à região ainda menos os julguei credíveis.

Não por os considerar oriundos de racismo. Mas porque estas suspeições sobre estrangeiros são padrão, vistos eles como agentes de práticas diabólicas. Digo-o por experiência própria, já antes alvo de suspeitas de vampirismo e de envenenador de poços, esta última durante epidemias de cólera. No campo estas visões do agressor externo recaem sobre os brancos mas também sobre negros, se forasteiros de aparência urbana, e, tradicionalmente, sobre os profissionais de saúde.

[Sobre estes assuntos há até alguns textos: o sociólogo Carlos Serra publicou há pouco um livro “Cólera e Catarse” sobre as acusações de produção de cólera na província de Nampula. A americana Merle Bowen publicou um artigo sobre as crenças vampíricas na Zambézia e eu próprio aflorei o assunto num pequeno texto há tempos apresentado]

Mas há poucas semanas almoçou cá em casa um padre muito veterano da província, aqui de passagem. Alarmado com a situação. Bastou para mudasse eu de opinião, tão fidedigna era a fonte.

Não se tenha dúvidas. Algo de terrível acontece em Nampula. Muito provavelmente ligado a redes internacionais de pedofilia, o regresso da escravatura.

E também ligado, em paralelo ou em cruzamento, com assassínios para utilização em práticas feiticistas. Que julgo recorrentes. E que por vezes chegam ao conhecimento público: há alguns anos ficou célebre uma decapitação em Maputo seguida da prisão de um mwalimu, que aparentemente teria encomendado a cabeça. Mas também nestes casos há muitos rumores, como as histórias de raptos para a África do Sul, dita grande consumidora de objectos humanos. [Rumores cujo credibilidade não deixa de ser prejudicada pelo facto dos seus ecos se restringirem ao jornal “Fim de Semana”, simpático pasquim maputense ainda que de mui reduzida fiabilidade]

Mas é preciso discernir. O que se passa neste momento não é tráfico de orgãos. Não há em Nampula possibilidades tecnológicas para o realizar. Os cadáveres surgidos terão quanto muito o destino da tecnologia feiticista.

Julgo aliás ter sido esse factor que impediu uma mais breve consciencialização. Quem apregoou o tráfico de orgãos incorreu num discurso tão irreal que implicou a desconfiança do público, ainda para mais neste contexto de rumores habituais.

PS. Aprecio o blogueiro HR, até mais em que no, e já aqui o disse. Talentoso, atento, cáustico. E dos poucos portugueses nestas andanças que olha para África. Foi muito certeiro sobre este assunto. Mas escrever

"Antes de mais, é nossa obrigação esclarecer que em Moçambique não
há tráfico de órgãos. O país não tem condições sequer (de isolamento
térmico, de higiene, técnológicas, etc.) para suturar uma pequena
ferida a direito, quanto mais para extrair um fígado, ou um rim para
futuro transplante
"

entra em manifesto exagero. Surge a reproduzir estereótipos que lembram a selva conradiana. Exagero que arrisca reduzir algo de importante: tem ele toda a razão no diagnóstico que fez sobre este caso. Excepto quanto ao sistema de saúde. Decerto que deficitário mas não ironizável, nunca ironizável.

posto por ele em 28 de fevereiro 2004 | na rubrica Indico | comente

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