Sonhos

Terra de bilingues. Terra de multilingues. Aos que enfrento, em cima desse estrado invisível que insistem em sublinhar, inquiro-lhes qual a sua primeira, aquela em que são mesmo. E quando ali oscilam, agarrados ao português de status, nem hesito no "em que língua é V. sonha"? para tantas vezes ver o "áfinal!" entre-sorrisos semicerrados "sonho em ...". Que os torna mais ricos.
Hoje, em dia de efeméride pessoal, muito me lembro disto. Associando-o a um "Atlas", o de Borges:
"O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado
ou no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o
hábito de ser Borges, emerjo invariavelmente de um sonho
que acontece em Buenos Aires.....Nunca sonho com o presente
mas sim com uma Buenos Aires passada e com as galerias
e clarabóias da Biblioteca Nacional na Rua do México. Quererá
isto dizer que, para lá da minha vontade e da minha consciência
sou irreparavelmente, incompreensivelmente portenho?"
E noto, meu Deus, há quanto tempo que não sonho com Lisboa, em Lisboa.