Fractura Digital

Com a Conferência de Genève do mês passado regressou o tema da fractura digital, que mais aparta desenvolvidos e não. E que é mais um espartilho para o futuro dos marginais na informática.
Noto-a a propósito dos blogs. Uma rápida busca confirma a raridade de blogs africanos. Por exemplo uma visita ao blogwise, mostra que em 12 698 blogs inscritos (hoje) há 31 africanos (e 17 são sul-africanos). E grande parte são como este maschamba, ocidentais por cá residentes, e de passagem. Ou então são noticiosos. Ideias que se confirmam no Catálogo de blogs africanos
Em português detectei dois ou três brasileiros dos quais sinceramente não gostei. E apenas dois portugueses, colocados lá em baixo nos Elos: Africanidades, um patrício na Guiné-Bissau, ainda um pouco espantado; e o Bazongadakilomba, um colectivo residente em Portugal (?) algo político demais para o meu gosto (acreditam demais em oposições?) - mas um dos seus autores tem um dos melhores blogs que já vi, o Substrato.
E, por fim, há o meu preferido, por ora muito calado mas sempre a (re)visitar, o Companhia de Moçambique
Pois, também nos blogs há uma fractura digital. Talvez seja pouco importante. Um blog é algo absolutamente inútil (característica que o aproxima da perfeição). E talvez seja esta a conjugação que implica a rarefacção de blogs em África: a tal fractura digital aliada a um grande utilitarismo da (parca) utilização informática.
A este propósito conto uma memória:
Há vários meses o comissário europeu para o desenvolvimento, um sueco (Nilsson?) visitou Maputo e conferenciou, anunciando em traços gerais as grandes linhas de apoio ao desenvolvimento eleitas pela Comissão Europeia.
Pareceu ríspido. [Confesso a minha dúvida, talvez que a habitual rispidez destes suecos muitas vezes não seja mais do que o eco metálico do seu sotaque inglês. Pois quando se começa a beber muitos até são uns tipos decentes].
Terminada a alocução entrou-se no debate. Interveio então o responsável local pela política de comunicações, Salomão Manhiça, notando a ausência de referências a um apoio à política de informatização, para ele crucial para o desenvolvimento. Aí Nilsson respondeu, rápido, e com a tal rispidez: "bem, fala-me em informática, mas eu estou preocupado é com a electrificação rural", ou seja para quê a informática se o povo não tem electricidade? (eu fiquei-me a olhar para o tecto a lembrar o velho "os sovietes e a electricidade" mas enfim, talvez seja o meu mau-feitio)
Fico-me pelo episódio. Que levanta questões sobre o "como fazer o desenvolvimento", talvez mais fundas do que as trazidas pelo tal comissário. Fazê-lo pela base, ou aceitar que há estratos sociais que dele poderão ser locomotiva? Acudir a tudo, ou aceitar que a manta não cobre o corpo todo, há sempre uns pezitos que ficam de fora?
Mas ao recusar, liminarmente, a importância de um apoio estrutural à informatização da sociedade o Comissário Europeu para o Desenvolvimento, foi claro (conscientemente?) em dizer que nem pensar em vanguardas sociológicas. Ou seja, a propósito disto traduziu o seu modelo de desenvolvimento. Será esse o entendimento europeu? Será explícito? [E nesse caso, não haverá por aí muitas contradições?]
Ou apenas a perspectiva individual de um indivíduo?
E que significa isso para o futuro? Para uma aproximação entre estes mundos, o ultrapassar o fosso gigantesco?
Enorme apontamento apenas para me questionar. Estará o comissário para o desenvolvimento (e todos os seus) conscientes das implicações sociológicas (e políticas) de uma breve e ríspida resposta a uma tão profunda pergunta?