Lema (bis)

Um blog é um diário. Melhor dizendo, porque menos impositivo, pode ser um diário. Então sai página disso. Apenas isso e não uma reflexão sobre a blogo-rede.
Desde que me meti a escrever isto tenho lido vários blogs. Procurei os africanos e os portugueses. Deles já referi a escassez e a abundância respectiva. Para os patrícios usei o Aviz como guia, acho simpático a longa lista de blogs que coligiu. Gosto muito do Aviz, visita diária. É abrangente, (muito) opinativo, mas nunca absoluto ou grosseiro: não há um pedestal debaixo do teclado do seu autor. Acho-o sábio (se não parecesse pedante diria sage).
Nesse labirinto tenho encontrado coisas muito diversas e interessantes (o efeito é que leio menos livros. Mas talvez seja sazonal.): Histórias da net (perdi o endereço), Naufrágios, o belissimo A Montanha Mágica são bons exemplos. E um blog pungente, agressivo, único, o Vítima da Crise - com mil homens como este e cruzávamos o Rubicão (decerto que para sermos trucidados).
E apanhei imensos sítios centrados na política, atractivos para um emigrante interessado, resmungão e (vá lá) saudoso. Nos elos pus os que prefiro, onde saliento uma boa surpresa. Tinha uma vaga, velha e irritante ideia do autor do A Praia, a qual se esbroou por completo, e não só por se epigrafar com o Lou Reed.
Mas ao fim de um mês e tal de maior assiduidade retiro três ideias deste emaranhado politólogo.
A primeira é o da mania das classificações: por vezes até nas "ligações" surgem os blogs qualificados como "extrema-esquerda", "esquerda" e por aí adiante. E as polémicas "fulano que é direita", donde o corolário "disse asneira". Ou então, ainda que raro, "surpresa, sicrano de esquerda até falou bem" (ou vice-versa para ambos os casos).
Não venho negar distinções esquerda-direita ( para mais os obituários do Bobbio ainda aí estão). Mas muito disto parece-me uma colecção de cromos e a rapaziada a colá-los na caderneta (nº 23 esquerda PS, nº 54 BE, nº 124 centro-direita, etc). Ou o "agora estamos a ganhar" que li estes dias. É perfeitamente legítimo entrar nessa, tudo isto não passa de puro prazer (narcisos?). Mas enquista um bocado as ideias, acho eu. E muitas vezes (ok, costela arrogante) mostra um bocadinho de falta de mundo, ainda que até de gente viajada: muitas certezas, muito poucas dúvidas. Ou seja, gente muito assertiva.
A segunda é a de uma enorme acidez, não universal, mas recorrente. Cá de longe não vejo bem as causas disso. Duvido que seja o inverno. Não me venham com o "ser português" (andam por aí alguns desses). E, por favor, a crise não! Crise de barriga cheia, se olharem à volta. Dirão que "com a desgraça dos outros posso eu bem". Talvez, mas o problema é dizerem "os outros"...
Esta arenga está influenciada por três textos que li hoje. Dois a propósito de Kaulza de Arriaga, um desagradável demagogo radiante com a morte do velho general, um outro (e num blog bem esgalhado) a aproveitá-la para um confusionismo (como aqui se diz) bem vácuo. Ambos estridentes e anacrónicos.
E um outro texto que gostaria de ter escrito, mesmo que parte das referências sejam diferentes - é incrível, a maioria dos jornalistas que cita nem conheço, não há dúvida que emigrei há muito. [mas o Clint é o meu Sporting no cinema]
Para quem não for lá cito-lhe o âmago: "A vida é demasiado longa, e difícil é manter a coerência entre imagens pública e privada e no interior de cada uma destas também."
Com isto tudo chego ao terceiro ponto: toda essa acidez cola-se. Releio esta ma-schamba dos últimos tempos e vejo-a assertiva, resmungona, "atrevida" quando fala aí do Norte. Talvez não seja nada mais do que as saudades, mas tanto fel ainda me estraga a horta.
E é por isso que venho repetir o que escrevi no princípio do blog: o seu lema é "O que é que me interessa quanto é que pesa a prima...!!?".
A ver se não me esqueço dele outra vez.